sexta-feira, 26 de setembro de 2008
Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cáuculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é.
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Ouvi um gru-gru: um ventre que faz barulho me aborrece porque nunca posso saber se é o seu ou o meu. Fechei os olhos; são líquidos que gorgolham nas tripas, todo mundo tem isso. Ele me ama, mas não ama minhas tripas; se lhe mostrassem meu apêndice num vidro, não o reconheceria; ele vive a me apalpar mas se lhe pusessem o vidro nas mãos não sentiria nada intimamente, não pensaria 'isto é dela'; a gente devia poder amar tudo de uma pessoa, o esôfago, o fígado, os intestinos. Talvez não gostem dessas coisas por falta de hábito, se as vissem como vêem nossas mãos e nossos braços, talvez as amassem; é por isso que as estrelas-do-mar devem amar-se melhor que nós; elas se estendem sobre a praia quando faz sol e expelem o estômago pra fazê-lo tomar ar e todos podem vê-lo. Eu me pergunto: por onde faríamos sair o nosso? pelo umbigo? talvez...
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